Casa do Corpo Santo, Setúbal, 1999

estudos, 1999
50 x 50 cm, óleo s/ tela
“Este tesouro,
nós o carregamos em vasos de argila,
para que esse incomparável poder seja de Deus
e não de nós.”
(2ª Carta de S. Paulo aos Coríntios, 4, 7)
O temas das virtudes é muito pouco abordado na Bíblia,
de maneira intencional e sistemática, embora S. Paulo
apresente algumas aproximações (1 Tm 6, 11-12 ou Tt 3,
2-10). A razão é simples: o Evangelho não é uma
“doutrina” ou uma “moral”, mas a proclamação da “Boa
Notícia” da libertação.
Desde o início, a tradição eclesial extraíu da cultura
antiga as categorias conceptuais morais nas quais
colocou o conteúdo ético da Revelação cristã. Não raras
vezes e por influência estóica, esta aceitação
a-crítica desembocou numa linguagem dualista da pessoa
humana. Por exempla, as quatro virtudes cardeais,
supondo mesmo que ela remonta a Platão (Rep. 4,6) e que
se encontra já no livro da Sabedoria (8,7), é retomada
largamente, na esteira de Cícero, por Santo Ambrósio
(De Paradiso, 3, 14-18) e sobretudo por Santo Agostinho
(De Libero Arbítrio, 1, 27) que generalizará o seu
ensinamento (assim a noção de virtude = habitus de
alma, no De Invent. 2.53). Foi principalmente São Tomás
que, adoptando a antropologia de Aristóteles, concebeu
uma sistematização das virtudes, realçando sobretudo o
papel da caridade.
A doutrina tradicional sobre as virtudes partia de uma
dupla preocupação: valorizar o elemento humano na vida
moral, como resposta do Homem ao apelo de Deus e efeito
da graça ao mesmo tempo. Por isso, os Padres da Igreja
situaram muitas vezes as virtudes numa perspectiva
ascética.
Para o cristianismo porém, a virtude não é um conceito
abstracto de bem que dá corpo a uma filosofia da
ascese. A virtude não é para os cristãos um fim em si
mesmo, mas visa a santidade da pessoa: a participação
do homem pelo seu esforço, para fazer o bem; e, ao
mesmo tempo, a acção de Deus na pessoa, dando a esse
esforço um valor divino. Esta dialética comunicativa
pressupõe um “Alguém” e, neste caso, o absolutamente
“Outro”. Numa linguagem clássica juntar-se-iam as
virtudes morais com as teologias. Assim, ao
contemplarmos as pinturas que nos são propostas, olhar
para o próprio umbigo é uma busca que se impõe:
procurar dentro de si o verdadeiramente humano, a
singularidade do “ser pessoa a caminho” e ao mesmo
tempo, olhar para o céu numa atitude de acolhimento ao
Dom de Deus. A este encontro que produz vida em
abundância chamamos experiência da graça.
As ilustrações de Luís Herberto revelam um sentido
profundamente cristão, desde que evitemos a perspectiva
de uma linguagem bipolar: o contraponto da virtude
seria, entendido desta forma, o pecado, como se a
virtude viesse do céu e o pecado fosse consequência da
natureza humana. Haveria um antagonismo
transcendência-imanência. Não. Na ressureição de Cristo
se manifesta uma revolução na interpretação do homem: a
pessoa humana é o lugar onde percebemos a
transcendência viva e concreta. A essa transcendência
chamamos Deus. Deus não está, pois, longe do homem. É a
sua máxima profundidade. É um tesouro que trazemos em
vasos de argila...
Pe. José Luís Gonçalves, CSh
DO CORPO E DA VIRTUDE
ou do poder da sugestão
Setúbal, Abril de 1999
Ao longo da História da Arte e até aos nossos dias, o
Corpo foi e continua a ser a principal instância de
motivação do impulso artístico, assim como o lugar
previlegiado e a referência mãe de todas as
processualidades. Sobre ele se exerceram e se exercem
as primeiras acções de transformação de imagem e com
ele e também a partir dele, adestrando o olhar e a mão,
se concebem e produzem outras novas imagens.
Desde há vários anos que Luís Herberto vem
manisfestando um acentuado interesse pelo Corpo na sua
prática artística. Há dois anos apresentou, na Casa do
Corpo Santo, um conjunto de telas de grande formato a
que deu o sugestivo título Da Velhice. Nesses trabalhos
procura desesperadamente esquecer a inexorável passagem
do tempo pelos corpos com a riqueza da senectude, em
registos subtilmente marcados pela harmonia processual
e cromática entre a imagem de corpos masculinos
moldados pelo trabalho e pela idade e o meio envolvente
em que foram inicialmente registados.
Derivou, em seguida, para a auto-representação, sempre
fiel ao seu postulado da primazia do registo e da
pintura a partir de modelos, exactamente para desses
processos partir para novos esquemas inventivos, e
debruça-se, agora, sobre a virtude, a partir de
personae femininas.
Aspiração à virtude e consciência do pecado
contrapõem-se na história e nas vivências dos homens e
hoje, mais do que nunca convivem e conflituam no âmago
de cada um de nós, desencandeando apetências e
comportamentos contraditórios. Qualquer um deles se
cristaliza não apenas em sentimentos mas sobretudo em
imagens. Imagens de desejos e de interdições que à
liberdade humana plenamente assumida cabe seleccionar.
O Corpo sempre foi não apenas o envólucro mas o lugar
de encenação e luta dessas pulsões contraditórias e
aparentemente inconciliáveis. Por isso, o Corpo
polariza tanto as imagens erotizadas de desejo e
transgressão da norma como so conceitos de
transcendência e de superação espiritual dos
constrangedores limites materiais da sua natureza.
Os desenhos e pinturas com que Luís Herberto nos aborda
o tema da virtude poêm-nos, quer através de um registo
gráfico personalizado, quer mediante um cromatismo de
tons quentes e suaves servidos por uma mancha nervosa,
perante personagens femininas do nosso tempo, tanto na
pose como no modo como se apresentam, que
ambivalentemente sugerem tanto o desejo como a sua
sublimação.
Contudo, parece claro, sobretudo nos dias que correm,
em que o sexo está a deixar de ser definitivametente um
tabú, que a imagem mais genuinamente erótica, ou seja,
a que transporta em si maior pulsão vital, não é a que
tudo mostra mas a que alimenta a imaginação pelo que
sugere. E não será essa uma das missões da pintura?
Fernando António Baptista Pereira
