
Nas pinturas de
generoso formato de Luís Herberto, bem como nos
concisos estudos sobre papel que as acompanham, domina
esplendorosamente a figura humana, tanto na sua (só
aparente) fragilidade ontológica como na sua inefável
solidão, mesmo ou sobretudo quando se oferece ao olhar
voyeurístico do espectador, sugestionado muito mais
pelo que se sugere, excitando a sua imaginação, do que
pelo que explicitamente se vê. As monumentais
composições de Luís Herberto distinguem-se igualmente
por um minucioso trabalho pictórico de definição de
espaços vastos, difusos ou neutralizados, em que se
encenam as figuras por um aturado trabalho da cor
nomeando a forma. Esse trabalho pictórico não descura a
citação de géneros e de numerosos tempos anteriores da
História da Pintura, definindo, assim, uma poética que
entende a pintura como um original e elaborado tecido
dos seus vários tempos, em que conceptualização e
execução se harmonizam e valorizam mutuamente na
expressão de uma diferença, que é, antes do mais,
artística, mas também se situa no plano das convicções
mais profundas acerca das atitudes e rupturas face aos
tabus culturais.
Fernando António
Baptista Pereira
(do texto do
catálogo)
In the works of great
dimensions by Luís Herberto, as well as in the concise
studies on paper, there is a impressive domination of
the human figure, either in its (only apparent)
ontological fragility or in its ineffable loneliness,
even though or even so when offered to the voyeuristic
eye of the spectator, suggests much more than meets the
eye, and stimulates the imagination, to see beyond what
is there. The monumental compositions of Luís Herberto
distinguish themselves equally by a scrupulous
pictorial work of definition of vast spaces, diffused
or neutralized which the figures display due to a
constant work of colour namely the form. The pictorial
work, does not disregard the citation of the genres and
the numerous times before in the History of Painting,
defining, thus, a poetry that understands the painting
as an original and elaborated cloth of its various
times, when concept and creation are in harmony and
mutually valued in the expression of difference, which
is above all artistic, but also situated in the plan of
conviction more deep in relation to the attitudes and
ruptures in the cultural taboos.
(trad. Catarina Burity Cruz)
Elsa Garcia ( na
TimeOut/ Lisboa #26 )
25 de Março de 2008
O pintor passou do universo dos “bobis” sexuais e
fetichistas da série “Sonhos Húmidos” ao mundo conjugal
dos “Amuos”. Uma realidade bem portuguesa na exposição
“Do Sofá”, na galeria LM, em Sintra, até 10 de Abril,
onde o artista expõe juntamente com Carlos Farinha e
Gilberto Gaspar.
Normalmente o sofá é aquilo que nos impede de sair de
casa e ver uma exposição...
O sofá tem uma grande carga associada ao relaxamento e
aos momentos eróticos. Apresenta o lugar privado e
individual, o espaço íntimo. Espaço de ócio, de
intimidade, de sonho.
Todos pintaram sofás?
Não, na verdade nenhum de nós trabalhou o sofá como
objecto pictórico. Tem mais a ver com a criação de
espaços dramáticos onde acontece alguma coisa. Há um
jogo de prazer, de recusa e de repulsa.
A série que estás a apresentar chama-se “Amuos”.
Porquê?
É uma consequência do trabalho anterior. Trata-se de um
trabalho com uma carga erótica muito forte e que está
muito relacionada com o espírito nacional do amuar. As
pessoas amuam por tudo e por nada nas relações
pessoais, laborais e sociais, e depois fazem o jogo do
está tudo bem. Esta ideia surgiu-me a partir do filme
Antes que Anoiteça de Julian Schnabel, sobre as
relações pessoais de um escritor homossexual. Este
trabalho não tem a carga de provocação negativa que os
“Sonhos Húmidos” despoletaram, mas a carga dramática é
muito forte porque nós, de facto, estamos sempre a
amuar.
Já que falaste nos “Sonhos Húmidos”, como é que surgiu
o teu fascínio por “bobis”?
Sabes, não é bem um fascínio por cães. Eu comecei esse
trabalho a pensar numa hipotética tese de doutoramento
em pintura e estive à procura de um tema provocatório e
como já está tudo mais que estudado, acabei por chegar
às zoofilias como um referente base. Devo dizer que
este trabalho bem me entalou no mercado das galerias.
Porquê? Quais os problemas que tiveste? Reacções
extremas aos quadros?
Sim, muito. Primeiro expus na galeria Quadrum e tive
algumas críticas da vizinhança e dos artistas do
Palácio dos Coruchéus, que se queixaram à polícia por
considerarem o trabalho pornográfico e diziam que era
impossível mostrar esta exposição às crianças uma vez
que era um espaço público e tinha muitas vitrines.
Depois tentei arranjar uma galeria a seguir à Quadrum,
mas foi impossível. Os galeristas ficaram muito
condicionados a este trabalho achando que eu era um
artista provocador e pornográfico e esqueceram toda a
minha obra anterior.
Para além das zoofilias nunca mais pintaste um tema tão
controverso?
Sim. Entre 2003 e o ano passado estive a trabalhar no
tema da homossexualidade e nas relações físicas
animais, mas sem animais. No entanto, acabei por pintar
em cima da maior parte desses trabalhos porque
precisava de telas e vendi dois a uns coleccionadores
que me pediram anonimato.
Elsa Garcia ( na TimeOut/ Lisboa #26
)
25 de Março de 2008



