Apresentação da série Sonhos Húmidos, Galeria Quadrum, Lisboa (2003)

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"Sonhos Húmidos", 2002/ 03; 195 x 388 (4 x 97,5) cm

Luís Herberto
Sonhos Húmidos
Por Elsa Garcia
Revista Umbigo #7 . 2003

Luís Herberto é o paradigma do pintor que vai além de qualquer tabu. Chocante é como define o seu trabalho, uma pintura muito directa e crua. Com ela desafia as mentes fechadas e mostra-lhes que o poder da criatividade é superior a qualquer preconceito. Sonhos Húmidos é o seu mais recente trabalho que esteve em exposição na Galeria Quadrum, em Lisboa. Um conjunto de pinturas a óleo que ilustra bem os submundos da zoofilia e os tabus da masturbação feminina.

O teu mais recente trabalho, Sonhos Húmidos, versa sobre o tabu da zoofilia. Porquê enveredar por esta temática?
Isto vem no seguimento do meu trabalho anterior intitulado Da Virtude, uma exposição que fiz na Casa do Corpo Santo, em Setúbal, sobre as virtudes femininas. Por sua vez, Da Virtude vinha no seguimento de um trabalho anterior sobre o pecado. Quis trabalhar as questões das perversões, dos pecados e das virtudes, que são relações emotivas que nós temos. Este projecto apareceu como uma ocorrência de uma série de vivências que fui presenciando. Comecei por ler uma série de artigos que saíram nos jornais sobre questões de zoofilia e, entretanto, comecei a ser constantemente “bombardeado” na minha caixa de correio electrónico com imagens de pornografia e zoofilia. Este “bombardeamento” levou-me a começar a explorar os sites porno de zoofilia, já com o intuito de fazer uma exposição. Entretanto, há uma coisa curiosa: nas minhas navegações descobri um site que dava informações sobre como utilizar o cão para uma relação sexual. Tive também acesso a um conto chinês do século XV, que falava acerca de um imperador que chamava os médicos da corte para implantar nele excertos do órgão sexual de um cão para poder castigar as concubinas. Eram imagens que eu ia guardando nos meus diários gráficos por achar fora do normal. O projecto já nasceu há quatro anos e só há dois é que o coloquei em prática. Sempre pensei que se continuo a pintar jovens com ar sublime não me safo na pintura, então porque não fazer uma pintura chocante, que chame mais a atenção e que sobretudo mostre algo que está escondido nas relações de desejo e fantasia de algumas mulheres?

É o exemplo de uma mostra politicamente incorrecta. Nesta altura de escândalos porque é que decidiste chocar?
É uma questão natural. Eu não estou a chocar apenas pelo choque. Vou chocar porque as imagens são realmente agressivas. Não vou deixar de fazer esta mostra só porque há excesso de zelo na informação que é difundida.

Que reacções esperas?

É complicado saber. As pessoas que frequentam o meu atelier e as que estão dentro do meio artístico não têm uma reacção de choque. Reagem ao objecto plástico. Deixa de ser pornografia para ser um objecto artístico. É natural que as pessoas em geral fiquem chocadas porque é uma pintura muito realista, figurativa e muito explícita. Para além disso, as pessoas estão cheias de tabus e de falta de liberdade de pensamento.

O que pensas da posição de alguns teóricos quando dizem que a pertinência da exploração do corpo na arte deixou de ter interesse a partir dos anos 80?

Isso é uma “pescadinha de rabo na boca”. Quem são esses teóricos? E depois, temos que ver quem é que os nossos críticos andam a copiar. Desde a pré-história que se explora o corpo na pintura. Só em diversos tipos de pintura, como o caso da Arte Povera, é que o corpo deixa de ter interesse. Por exemplo: um pintor como o Gerard Richter, que acompanhou várias épocas na pintura nos anos 70 e 80, trabalha a vários níveis, desde o corpo à forma pura. Essa questão do corpo estar fora de moda é mais uma questão institucional e de interesse económico. É preciso manter a especulação na pintura senão não dá dinheiro.

Fala-me um pouco de ti e de quando começaste a pintar.
Muito tarde. Comecei aos 25 anos por uma questão meramente académica. Eu trabalhava em restauro de pintura e comecei a fartar-me da exploração que havia no meio. Foi essa desilusão que me fez entrar na Escola de Belas Artes, em Lisboa. Quis fazer um curso que me desse alguma realização pessoal, mas nem sequer pensava em fazer exposições. Queria simplesmente aprender mais e só comecei a pintar seriamente no 4º ano do curso, quando percebi que tinha capacidades para fazer um trabalho original.

Foi nessa altura que começaste a fazer exposições?
Sim, fiz a minha primeira exposição que teve uma boa divulgação e entretanto tive o convite para trabalhar com uma galeria de Lisboa, para a qual fiz uma exposição. Mas não correu muito bem do ponto de vista das relações pessoais com os galeristas, que eram pouco dados à inteligência. Só mais tarde, em 2000, é que voltei a trabalhar com uma galeria: a Quadrum, que está à margem das questões sociais e dos interesses. O trabalho é o mais importante, ninguém me pede para pintar em dimensões mais pequenas ou para pintar umas meninas com determinado tipo de roupinha porque se vende mais.

Mas a venda dos quadros também é importante para a sobrevivência no meio artístico.
Sim, mas comecei a dar aulas regularmente e deixei de me preocupar com o pintar só para vender, pintando o que realmente me apetecia.

Numa das tuas séries decidiste defrontar-te com o tema da velhice. Idosos em poses de aparente lazer que foram resgatados ao esquecimento. Numa era em que existe o culto da beleza jovial, porque decidiste fazer este trabalho?

Bem, nunca me agradou muito a questão das Barbies (risos). E a verdade é que todos nós envelhecemos mais tarde ou mais cedo. Este trabalho foi iniciado em 1994 e na altura eu já pretendia chocar. Houve até uma galerista que já tinha ouvido falar do meu trabalho e me telefonou entusiasmada para ver essas pinturas. Quando chegou ao atelier ficou chocadíssima e disse de imediato: “mas isto não se vende nada! As pessoas têm medo da velhice”. Afinal ninguém queria ter em casa um corpo degradado.

E das exposições que fizeste, houve alguma em que tenhas vendido várias pinturas?
Sim, na minha exposição intitulada Da Virtude vendi imenso. Estava cheia de imagens subentendidas e que podiam provocar conotações eróticas, apesar de serem perfeitamente inócuas.

Tens alguns artistas de referência?
Tenho e curiosamente são artistas que trabalham muito pouco o campo da pornografia. Gosto muito da escola inglesa, de pintores como o Lucien Freud, que tem uma técnica magnífica. Trabalha as relações homossexuais, as pessoas disformes, velhas, novas, e expõe sem preconceitos. Aprecio bastante o trabalho de Michael Andrews e aprendi muito com ele a nível técnico. Também gosto muito de Goya, Caravaggio e Julião Sarmento, principalmente das pinturas dos anos 80.

Quais são os teus projectos para futuras exposições?
Tenho uma trilogia planeada. Agora a exposição da zoofilia, depois em Outubro do ano que vem vou fazer uma exposição sobre a masturbação feminina na Cisterna da Faculdade de Belas Artes, e depois uma outra área que ainda estou a explorar sobre as relações da homossexualidade masculina e feminina que são, de certo modo, proibidas pela sociedade em geral. Por muito que as pessoas se manifestem “gays à frente”, isso de facto não acontece e continua a ser um tema tabu. Depois de fechar este ciclo encerro o tema da sexualidade e vou dar início a outro tema.